| Se é verdade que a arte sempre espelhou os gestos da Igreja – ora como extensão do poder, ora como expressão da fé, o pontificado de Jorge Mario Bergoglio ofereceu uma inflexão única. Ao escolher o nome “Francisco”, o papa argentino já anunciava um programa estético e teológico: não se trata de embelezar a instituição, mas de desnudá-la. A arte, nesse contexto, deixa de ser ornamento e se torna evidência de conversão. |
Publicado em memória de Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco (1936–2025)
O papado de Jorge Mario Bergoglio representou uma ruptura silenciosa na relação entre o Vaticano e a arte. O 266º vigário de Cristo foi um papa de muitas primeiras vezes: o primeiro a utilizar o nome de Francisco, o primeiro pontífice não europeu em mais de 1 200 anos (o último antes dele havia sido o papa Gregório III, sírio, morto em 741), o primeiro das Américas, o primeiro do Hemisfério Sul e o primeiro Bispo de Roma a ser membro da Companhia de Jesus (os Jesuítas).
E no contexto das artes, foi artífice de uma mudança profunda na maneira como reposicionou o papel delas dentro da instituição católica. Durante seu pontificado, a contenção marcou seu posicionamento e a estética se tornou uma linguagem de valores. O papa Francisco jamais negou o valor simbólico das artes visuais na tradição cristã, mas escolheu não habitá-las como aparato de prestígio. Não construiram-se novas cúpulas ou monumentos, e tampouco colecionou ícones.
O Juízo Final do Michelangelo como síntese de sua estratégia

Artista: Michelangelo Buonarroti
Ano: 1535–1541
Época: Alto Renascimento / Maneirismo
Material: Afresco
Dimensões: Aproximadamente 1370 × 1200 cm
Localização: Parede do altar da Capela Sistina, Vaticano
A relação do papa Franscico com a Capela Sistina é exemplar nesse sentido. Ali onde a admonição do Juízo Final de Michelangelo esbofeta a espetacularização da criação – que o mesmo artista havia sintetizado no teto, apenas 20 anos antes, o papa Francisco foi mais uma vez o primeiro que compreendeu sua mensagem, de forma inédita entre os pontífices modernos.
O Michelangelo jovem que pintou a Criação ainda carregava uma fé possível na Igreja como instrumento de manifestação divina. Já o Michelangelo maduro, do final da vida, havia se tornado outra coisa. Um homem desconfiado, ambíguo, nitidamente em luta com o aparato papal que havia se tornado a própria encarnação do poder que um dia deveria servir ao espírito.
A parede do altar da Sistina é sua denúncia. O Cristo que ali julga não é Deus Pai, mas o Filho, humano, musculoso, contido e severo. É a humanidade julgando a humanidade. A mensagem é clara e dura, e Francisco, em sua primeira homilia como papa, pronunciada ali mesmo, não celebrou a eleição. Silenciou a doutrina como espetáculo. Usou o espaço como espaço, não como espelho. Estava cercado de pintura, mas falou de caminho, de construção, de cruz e de serviço. De homem para homens.
“Caminhar, edificar, construir e confessar não são coisas fáceis. Há movimentos que nos levam para trás. […] É preciso ter a coragem de caminhar na presença do Senhor, com Sua cruz, edificando a Igreja com o sangue dela. Sem a cruz não há como sermos discípulos do Senhor. Quando caminhamos sem ela, somos mundanos e não discípulos do Senhor.”
Homilia do Papa Francisco | Capela Sistina – 14 de março de 2013
Esse gesto diz mais do que aparenta. Por séculos, a arte foi usada como estratégia de validação institucional e, em Roma, beleza sempre significou autoridade. De Sisto IV a Paulo V, o papado moldou seu poder por meio de imagens, iconografia e urbanismo. A escolha de Francisco vai no sentido contrário, e seu pontificado pareceu guiado pela recusa de toda monumentalidade vazia. Sua estética é a do gesto, do corpo que se curvava, da presença que escutava e a arte não era mais propaganda, mas um canal possível de empatia.
Aqui o paralelo com São Francisco de Assis se torna inevitável: não apenas porque o nome o exige, mas porque a atitude estética de ambos responde à mesma intuição. A beleza não está no mármore, mas no gesto radical de se despir de tudo. A renúncia aos bens materiais, retratada por Giotto no ciclo de afrescos da Basílica Superior de Assis, é um ato de ruptura e também uma nova estética da vulnerabilidade. O corpo nu diante da cidade veste o discurso de rebeldia com o tecido da imagem.

Artista: Giotto di Bondone
Ano: c. 1292–1296
Época: Trecento (Proto-Renascimento)
Material: Afresco
Dimensões: Aproximadamente 270 × 230 cm
Localização: Basílica Superiore di San Francesco, Assis
A iconografia franciscana sempre resistiu à tentação do sublime. Mesmo em ciclos majestosos como os de Giotto ou Cimabue, o que se impõe é a terra, com a cor ocre que domina a paleta. Os corpos são angulosos e as emoções são evidentes, em uma linguagem visual que ecoa na maneira como Francisco papa se relacionava com a arte e o mundo contemporâneo. Ele não buscou a harmonia idealizada dos renascentistas, mas a força expressiva do inacabado, daquilo que ainda pulsava e feria.
Arte e vocação
Paradoxalmente (embora nem tanto, pensando bem), o nome que melhor sintetiza essa convergência talvez seja o do Caravaggio. Francisco citou diretamente sua obra em discursos sobre a misericórdia:
Mateus seguiu Jesus porque, como na pintura de Caravaggio, foi surpreendido no exato momento em que, carrancudo e agarrado ao dinheiro, recebeu o olhar misericordioso de Cristo que, sem dizer muito, disse tudo: “Vem”.
Homilia do Papa Francisco | Capela da Casa Santa Marta – 21 de setembro de 2017
A escolha é carregada de sentido. Em A Vocação de São Mateus, exposta na Igreja de São Luís dos Franceses em Roma, a luz divina não incide sobre um altar, mas sobre uma mesa de taberna. Cristo entra de lado, como intruso e não aponta um santo, mas um homem comum. O chamado se dá na sombra. É essa a gramática visual que interessava a Francisco, a da graça que não exige pureza, mas presença.

Artista: Michelangelo Merisi da Caravaggio
Ano: c. 1599–1600
Época: Barroco italiano inicial
Material: Óleo sobre tela
Dimensões: 322 × 340 cm
Localização: Capela Contarelli, Igreja de São Luís dos Franceses, Roma
o Museu como espaço de diálogo
Desde o início do seu papado, Francisco insistiu que os museus deviam ser espaços de diálogo, não de reverência. O pontífice queria que os museus acolhessem, provocassem, e – sobretudo – educassem sem excluir. Essa visão rompe com a lógica tradicional de exibição monumental e a arte, nesse novo enquadramento, é apresentada como ponto de partida para perguntas urgentes: quem tem acesso ao belo? Quem é autorizado a interpretar? Quem se reconhece ali?
Sob sua influência, os Museus Vaticanos começaram a abrir programas dedicados a grupos historicamente marginalizados na fruição da arte. Pessoas com deficiência visual passaram a ser recebidas com materiais táteis e descrições sensoriais pensadas para ampliar a experiência estética para além do olhar. Jovens de comunidades periféricas foram convidados a visitar e reinterpretar as coleções, aproximando-se de um acervo que, até então, lhes era tão distante quanto as genealogias apostólicas que sustentavam seus corredores. Migrantes e refugiados participaram de ações educativas que usavam a arte como linguagem comum, onde não era necessário passaporte para compreender o gesto.
Em vez de celebrar apenas os mármores que sustentaram os impérios e os pincéis que glorificaram os santos, o museu passa a se propor como espaço de confronto simbólico entre mundos – entre o centro e as bordas, entre o sagrado e o humano, entre o passado canonizado e o presente ainda em disputa.
Um Caminho entre poder e pobreza
Na Basílica de Assis, isso se tornou quase tangível, e o Francisco visitou o local inúmeras vezes, não como celebridade institucional, mas como herdeiro de uma tradição inquieta. A Basílica, com seus dois andares superpostos, parece conter em si a ambiguidade do próprio papado. O peso da história no nível superior e a cripta humilde onde repousa o corpo do santo, embaixo, quase escondido.

Artistas: Elia da Cortona, Lapo Tedesco (Séc. XIII) e Bernardo Rossellino (Séc. XV)
Ano: Consagrada em 1253 (iniciada em 1228)
Época: Transição entre Românico e Gótico italiano
Material: Alvenaria em pedra calcária rosa e branca
Dimensões: Complexo com dois níveis e esplanada inferior
Localização: Assis, Úmbria, Itália
O papa argentino caminhou nessa sobreposição entre poder e pobreza, e é curioso perceber como essa mesma lógica se manifestou também na ausência. Não houve grandes obras associadas ao nome de Francisco: nenhum afresco, nenhuma escultura, nenhuma encomenda que aspirasse à eternidade. A sua intervenção era outra, talvez menos visível, mas certamente mais densa. Uma espécie de curadoria moral sobre o que a Igreja devia mostrar e sobre o que devia, finalmente, deixar de mostrar.
Demonstrando uma contemporaneidade midíatica mais madura que no passado, Francisco manteve sob estreito controle a estetização da fé. Evitou transformar os gestos em símbolos prontos e nisso a sua imagem pública, controladíssima, era de fato uma forma deliberada de romper com o barroquismo da comunicação vaticana. Nenhum outro papa moderno foi tão fotografado, mas tão pouco estetizado. Era uma escolha e, como toda escolha, era uma posição política.
No papado de Francisco a arte não desapareceu, mas sem dúvida se deslocou. Trocou o bronze pela carne, o ouro pelo silêncio, e isso nos obriga a lembrar de algo essencial: a verdadeira beleza, como dizia São Francisco em seu Cântico das Criaturas, nasce da relação entre o humano e o mundo, não da separação entre eles.